A história
Eu estou aqui porque um dia ela acreditou
Dez partes, escritas por ele.
Parte 01
ANTES DA TATUAGEM
Antes de existir a BZINK, antes das tatuagens e antes de alguém conhecer o meu trabalho, existia um menino tentando fazer a mãe sorrir.
Eu vim de uma família humilde. Minha mãe trabalhava como camelô. Vendia salgados, pão de queijo e o que fosse possível para colocar as coisas dentro de casa.
Ela enfrentava uma depressão profunda e, mesmo assim, acordava cedo e ia trabalhar.
Quando eu era criança, não entendia tudo o que existia por trás daquilo. Eu só via minha mãe trabalhando.
Via a fiscalização. Via o medo. Via, algumas vezes, as mercadorias pelas quais ela tinha trabalhado serem levadas.
Essas coisas ficaram em mim.
Eu queria crescer para dar tranquilidade a ela.
Queria que chegasse o dia em que ela não precisasse mais acordar tão cedo, se preocupar com dinheiro ou com o dia seguinte.
Eu queria que a única preocupação dela fosse sorrir.

Parte 02
MINHA MÃE FOI QUEM ENXERGOU PRIMEIRO
A arte entrou na minha vida muito antes de eu imaginar que poderia viver dela.
Meus primeiros desenhos eram tortos, rasurados e cheios de erros.
Hoje eu olho alguns deles e penso:
“Meu Deus… como eu fiz isso?”
Mas minha mãe olhava diferente.
Ela via meus desenhos, admirava e dizia que eu tinha talento.
“Que legal, meu filho.”
“Você desenha muito bem.”
“Meu filhote.”
Era assim que ela me chamava.
Antes de eu acreditar no artista que poderia me tornar, minha mãe acreditou nele.
E porque ela acreditava, eu comecei a acreditar também.
Parte 03
EU PRECISAVA APRENDER
Eu queria melhorar.
Não queria depender apenas daquilo que as pessoas chamavam de talento.
Passei aproximadamente cinco anos estudando desenho. Nesse caminho, Osmar teve um papel importante na minha formação, assim como tudo o que fui aprendendo durante esses anos.
O esporte também me ensinou muito.
Principalmente a natação.
Foi ali que aprendi sobre disciplina, repetição, esforço e sobre continuar mesmo quando a evolução parece pequena.
Aos poucos, uma coisa ficou muito clara para mim:
talento pode abrir uma porta.
Mas é o trabalho que determina até onde você consegue ir.
Parte 04
EU ACHAVA QUE MEU CAMINHO ERA OUTRO
Por um tempo, eu achei que meu caminho seria a arquitetura.
Fiz um curso de Design de Interiores, mas percebi que não era exatamente onde eu queria estar.
Depois, comecei a estudar para vestibulares com um objetivo bem específico: entrar em Arquitetura na Belas Artes, uma instituição que eu admirava.
Mas a vida acabou me colocando naquela escola por outra porta.
Entrei em Design de Games.
No começo, a ideia era entrar, aprender e depois tentar migrar para Arquitetura.
Eu não fazia ideia do quanto aquele curso ainda iria me ensinar.
E aconteceu uma coisa que eu não esperava:
eu me apaixonei pelo curso.
Durante aproximadamente um ano e meio, aprofundei meus estudos em pintura, desenho, percepção visual e até conhecimentos ligados à neurociência.
Sem perceber, eu estava construindo ferramentas que mais tarde fariam parte da minha forma de criar.

Parte 05
MARÇO DE 2021
Então chegou março de 2021.
No auge da pandemia, eu perdi minha mãe.
Meu mundo desabou.
Não era só a dor de perder a pessoa mais importante da minha vida.
Existia também uma realidade que eu precisava enfrentar.
Nossa família era humilde. Minha mãe era uma das bases da casa. Eu não tinha emprego e minhas tentativas de entrar no mercado tradicional nunca tinham realmente se transformado em uma oportunidade.
De repente, eu estava diante de uma vida que parecia não ter manual.
Nem direção.
Nem chão.
E foi nesse momento que precisei olhar para aquilo que ela havia deixado.
Ela não deixou uma herança financeira.
Deixou valores.
Ensinamentos.
Amor.
E uma crença quase teimosa de que o filho dela poderia ser um artista.
Parte 06
A APOSTA DELA
Pouco antes de partir, minha mãe fez algo cuja dimensão eu só entenderia depois.
Ela usou parte importante das reservas que tinha para me ajudar a comprar um tablet, um iPad para os meus desenhos.
Também havia investido no meu curso de tatuagem.
Depois que ela se foi, eu percebi:
ela tinha apostado em mim mais uma vez.
E quando eu não sabia o que fazer da minha vida, decidi apostar exatamente naquilo em que ela já havia apostado antes de mim.
Na arte.
Eu precisava honrar aquele curso.
Aquele tablet.
Cada curso de desenho.
Cada elogio.
Cada vez que ela olhou para uma folha rabiscada e decidiu enxergar potencial em vez de imperfeição.
Foi aí que a tatuagem deixou de ser apenas uma possibilidade profissional.
Ela se tornou uma forma de continuar uma história.

Parte 07
QUANDO TUDO FICOU CINZA
Mas isso não significa que tudo ficou bem.
Durante muito tempo, eu não conseguia entender qual seria o sentido de vencer se a pessoa para quem eu mais queria proporcionar uma vida melhor não estava mais aqui para viver aquilo comigo.
Eu tinha passado anos imaginando um futuro em que conseguiria cuidar da minha mãe.
Quando ela se foi, esse futuro perdeu parte do significado.
Por muito tempo, meu mundo pareceu cinza.
Eu passei anos tentando entender se ainda era merecedor de felicidade, de sucesso, de construir uma família e de realizar os sonhos que um dia imaginei.
Mas algumas pessoas apareceram no caminho.
Amigos.
Pessoas da minha família.
Poucas, mas verdadeiramente família.
Gente que me acolheu quando eu não conseguia me sustentar emocionalmente sozinho.
Eu gosto de pensar que algumas delas foram colocadas no meu caminho por Deus.
Como se, de alguma maneira, minha mãe ainda estivesse cuidando de mim.
Parte 08
O SONHO
Até que, um dia, eu sonhei com ela.
Naquele sonho, minha mãe me dizia que Deus permitia que ela acompanhasse meu desenvolvimento.
Que ela estava olhando por mim.
Que desejava luz para a minha vida.
E, principalmente, que eu deveria viver.
Ser feliz.
Construir uma família.
Realizar meus sonhos.
Ela estava torcendo por mim.
Não importa como alguém escolha interpretar um sonho.
Para mim, aquele momento mudou alguma coisa.
O mundo que durante tanto tempo pareceu cinza começou, aos poucos, a recuperar suas cores.
Eu comecei a entender que continuar não significava deixá-la para trás.
Continuar também poderia ser uma forma de levá-la comigo.

Parte 09
AINDA EXISTEM DIAS EM QUE EU DUVIDO
Até hoje existem momentos em que eu duvido de mim.
Quando começo um trabalho novo e penso que talvez eu não seja capaz.
Quando uma ideia parece grande demais.
Quando olho para outros artistas e começo a questionar até onde consigo chegar.
Quando alguém não gosta do que eu faço.
Ou quando a minha própria cobrança diz que minha arte não é boa o suficiente.
Nesses momentos, eu volto para uma lembrança muito simples.
Minha mãe acreditava em mim.
Ela viu meus primeiros desenhos tortos e rasurados e, mesmo assim, enxergou alguma coisa ali.
Se um dia ela acreditou naquele menino, eu tento não desistir do homem e do artista que aquele menino se tornou.
Por isso, ela ainda participa da minha arte.
Às vezes, quando estou criando alguma coisa nova, é nela que encontro coragem para atravessar a insegurança e continuar.
Parte 10
BZINK
Quando chegou o momento de dar um nome ao meu estúdio, eu não conseguiria pensar em algo que não carregasse essa história.
BZ vem de Bezerra, o sobrenome da minha mãe.
INK vem da tinta, da tatuagem e da profissão que nasceu justamente da última aposta que ela fez em mim.
BZINK.
Para algumas pessoas, pode ser apenas o nome de um estúdio.
Para mim, é uma maneira de dizer o nome dela todos os dias sem precisar pronunciá-lo.
É lembrar de onde eu vim toda vez que entro para trabalhar.
E existe também uma frase que representa muito do que eu quero que esse lugar seja:
“Coração de mãe cabe todo mundo.”
Não como uma frase que ela costumava dizer, mas como uma ideia que encontrou espaço dentro daquilo que eu construí.
Eu não quero que a BZINK seja apenas um lugar onde tatuagens são produzidas. Quero que exista humanidade por trás da técnica. Que histórias sejam respeitadas. Que pessoas diferentes possam entrar e sentir que existe espaço para elas.
Talvez essa seja uma das formas mais bonitas de manter um pouco daquilo que ela era dentro daquilo que eu construí.
Eu continuo estudando.
Continuo desenhando.
Continuo tentando ser melhor do que fui ontem.
Porque tudo o que vivi me ensinou que arte é construção.
Eu estou aqui porque um dia ela acreditou.
E enquanto eu puder criar, uma parte dela continuará criando comigo.

































































